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A estratégia do medo volta à cena eleitoral e transforma segundo turno em guerra de narrativas
Política

A estratégia do medo volta à cena eleitoral e transforma segundo turno em guerra de narrativas

A estratégia do medo volta à cena eleitoral e transforma segundo turno em guerra de narrativas

Em vez de propostas, campanha aposta na disseminação de cenários alarmistas para tentar pressionar o eleitor e conter o avanço de Flávio Bolsonaro

O segundo turno das eleições presidenciais de 2026 vem ganhando contornos de uma das disputas eleitorais mais agressivas da história recente do Brasil. À medida que a campanha se aproxima da reta final e Flávio Bolsonaro aparece em posição competitiva nas pesquisas eleitorais, a disputa deixa cada vez mais o campo das propostas para entrar em uma verdadeira guerra de narrativas.

Uma estratégia conhecida na política brasileira volta a ganhar força: o uso do medo como instrumento eleitoral.

Nas redes sociais e na propaganda política, eleitores têm sido expostos a uma sucessão de mensagens alarmistas envolvendo possíveis mudanças na Constituição, suposto fim de programas sociais, alterações no Bolsa Família, encerramento do Farmácia Popular e até afirmações de que mulheres poderiam perder o direito de votar.

São afirmações de enorme repercussão social e que, justamente por isso, exigem responsabilidade, comprovação e contextualização. Quando informações sem fundamento são apresentadas ao eleitor como certezas, o debate democrático deixa de ser uma comparação entre projetos e passa a ser uma tentativa de provocar medo para influenciar o voto.

O medo como ferramenta para virar votos

A lógica é conhecida: diante de uma eleição apertada, cria-se a percepção de que uma eventual vitória do adversário representaria uma ameaça direta à vida cotidiana do cidadão.

O eleitor que recebe uma informação de que poderá perder um benefício, ter um direito retirado ou sofrer alguma consequência grave pode deixar de analisar propostas e passar a votar motivado exclusivamente pelo receio.

É justamente nesse ponto que a campanha eleitoral corre o risco de abandonar o debate democrático.

Não se trata de impedir críticas a Flávio Bolsonaro. Adversários têm todo o direito de questionar suas posições, seu governo, suas propostas e seu grupo político. O problema começa quando críticas são substituídas por afirmações alarmistas que não encontram respaldo nas propostas oficiais ou na legislação vigente.

Uma campanha cada vez mais baseada no ataque

O segundo turno deveria ser o momento de apresentar ao eleitor duas visões de país e permitir uma comparação objetiva.

Em vez disso, o que se observa é uma escalada de ataques, acusações e conteúdos destinados a atingir a imagem pessoal e política dos adversários.

A disputa deixa de ser:

“O que cada candidato pretende fazer pelo Brasil?”

E passa a ser:

“O que pode acontecer de pior se o adversário vencer?”

Essa mudança de foco é preocupante.

Uma eleição presidencial não pode ser reduzida a uma disputa para descobrir quem consegue produzir o maior temor no eleitor.

Bolsa Família, Farmácia Popular e direitos das mulheres

Entre os conteúdos que circulam estão mensagens relacionadas ao futuro do Bolsa Família, do Farmácia Popular e de outros programas sociais.

Essas políticas são importantes para milhões de brasileiros e, exatamente por isso, merecem ser tratadas com seriedade.

O eleitor tem direito de saber qual é a proposta de cada candidato para esses programas, quanto será investido, quais serão os critérios de atendimento e como essas políticas serão financiadas.

O que não pode prevalecer é a lógica de que determinado benefício pertence a um candidato ou partido e que sua existência estaria automaticamente condicionada ao resultado eleitoral.

O mesmo vale para direitos fundamentais, como o voto feminino.

Afirmações de que mulheres poderiam perder o direito de votar precisam ser confrontadas com os fatos e com a legislação brasileira. O sufrágio feminino é um direito constitucional consolidado e qualquer mudança dessa natureza exigiria um processo legislativo complexo e não poderia simplesmente ser determinada por um candidato ou presidente.

Transformar uma hipótese inexistente ou altamente improvável em ameaça eleitoral concreta é justamente o tipo de narrativa que pode produzir medo sem produzir informação.

Quanto mais apertada a disputa, maior a responsabilidade

A possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro, apontada por diferentes levantamentos eleitorais, tende naturalmente a aumentar a pressão política sobre sua campanha.

É nesse momento que a responsabilidade de todos os lados precisa ser ainda maior.

Se a eleição está sendo disputada voto a voto, cada informação falsa pode atingir milhares ou milhões de pessoas.

Por isso, a sociedade brasileira precisa exigir das campanhas mais transparência e menos manipulação emocional.

O eleitor não é propriedade de nenhum partido.

Ele não pode ser tratado como alguém que precisa votar em determinado candidato porque está sendo ameaçado pela possibilidade de perder um benefício ou um direito.

Uma eleição precisa ser vencida pelas propostas

Flávio Bolsonaro deve ser cobrado por suas propostas. Lula também.

Os dois devem explicar ao eleitor como pretendem governar, quais serão suas prioridades, como vão administrar os recursos públicos, quais políticas sociais pretendem manter ou ampliar e quais serão suas estratégias para saúde, educação, segurança, economia e geração de empregos.

É assim que uma democracia funciona.

O eleitor brasileiro não precisa de uma guerra de medo. Precisa de informação.

Não precisa de notícias destinadas a destruir reputações. Precisa conhecer projetos.

Não precisa ser pressionado. Precisa ser respeitado.

A história brasileira já mostrou que o medo pode ser uma poderosa ferramenta eleitoral. Mas uma democracia madura precisa justamente impedir que o medo substitua o debate.

À medida que o dia 25 de outubro se aproxima, a responsabilidade deveria ser ainda maior: menos guerra de narrativas, menos notícias falsas e mais propostas.

Porque, no final, quem deve decidir o futuro do Brasil não é o medo produzido pelas campanhas.

É o eleitor.

CDK – Permuta
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