Canetas emagrecedoras e a perda de colágeno
O que a ciência já sabe sobre emagrecimento rápido, massa magra e sustentação da pele
Por Nathália Cândida | Fisioterapeuta Dermatofuncional
As chamadas canetas emagrecedoras transformaram o tratamento da obesidade. Medicamentos como a semaglutida e a tirzepatida atuam sobre hormônios relacionados à saciedade e ao controle do apetite, proporcionando reduções de peso que, até poucos anos atrás, dificilmente eram alcançadas sem cirurgia.
No estudo STEP 1, realizado com 1.961 adultos, os participantes tratados com semaglutida perderam, em média, 14,9% do peso corporal em 68 semanas, enquanto o grupo placebo perdeu 2,4%. O estudo SURMOUNT-1, com 2.539 adultos, demonstrou reduções médias entre 15% e 20,9% com a tirzepatida ao longo de 72 semanas, conforme a dose utilizada.
Esses resultados representam um avanço importante para a saúde metabólica. Ao mesmo tempo, a redução rápida de peso trouxe uma nova preocupação para consultórios e redes sociais: os efeitos do emagrecimento sobre a pele, a musculatura e a sustentação da face e do corpo.
O que se sabe sobre a perda de colágeno
Ainda não existem evidências suficientes para afirmar que esses medicamentos destruam diretamente o colágeno. O que está mais bem demonstrado é que uma perda de peso intensa ou acelerada reduz a gordura corporal e também pode diminuir parte da massa magra.
Análises de composição corporal indicam que, em média, cerca de 75% do peso perdido corresponde à gordura e aproximadamente 25% pode corresponder à massa magra. Essa proporção não é igual para todos. Idade, alimentação, atividade física, quantidade total de peso eliminada e condições de saúde interferem no resultado.
Na face, a redução dos compartimentos de gordura diminui o volume que sustentava a pele. Quando o emagrecimento acontece mais rapidamente do que a capacidade de retração dos tecidos, podem surgir flacidez, aprofundamento dos sulcos, olheiras mais evidentes, perda do contorno facial e aparência de cansaço.
Esse conjunto de alterações ficou popularmente conhecido como ‘rosto de Ozempic’, mas o termo pode gerar uma interpretação equivocada. O aspecto não é exclusivo da semaglutida e pode ocorrer após qualquer emagrecimento expressivo, inclusive depois de dietas muito restritivas ou cirurgias bariátricas.
Estudos com pessoas que apresentaram grande perda de peso identificaram mudanças na estrutura da derme, incluindo remodelação das fibras, redução de fibras colágenas espessas e comprometimento da elasticidade. Uma revisão científica publicada em 2026 também reuniu relatos de perda de volume facial, redução da elasticidade e alterações de colágeno e elastina em pacientes que emagreceram com medicamentos relacionados ao GLP-1. Os próprios autores destacam que ainda são necessários estudos prospectivos para esclarecer quanto dessas mudanças decorre da medicação e quanto decorre do próprio emagrecimento.
Por que algumas pessoas percebem mais flacidez
A resposta da pele varia de pessoa para pessoa. Idade, genética, histórico de obesidade, exposição solar, tabagismo, hidratação, ingestão de proteínas, menopausa e velocidade da perda de peso interferem na capacidade de retração dos tecidos.
A produção natural de colágeno começa a diminuir ainda na vida adulta. Quando essa redução se soma a uma perda rápida de gordura e massa muscular, a flacidez pode se tornar mais evidente.
Também é importante lembrar que comer menos não significa, necessariamente, comer melhor. Como as canetas reduzem bastante o apetite, algumas pessoas passam a consumir quantidades insuficientes de proteínas, vitaminas e minerais necessários para a manutenção da pele e da musculatura.
Como reduzir o impacto do emagrecimento sobre a pele
Nenhuma estratégia impede completamente as mudanças provocadas por uma grande perda de peso. Alguns cuidados, porém, ajudam a preservar a massa muscular e oferecem melhores condições para a pele acompanhar o processo:
- manter acompanhamento médico durante o tratamento;
- receber orientação nutricional e consumir proteínas em quantidade adequada;
- praticar exercícios de força para ajudar a preservar a massa muscular;
- manter hidratação, sono adequado e proteção solar diária;
- evitar tabagismo e dietas excessivamente restritivas;
- avaliar precocemente a qualidade da pele e o grau de flacidez.
Na área dermatofuncional, recursos voltados à estimulação de colágeno podem ser indicados de forma individualizada. Bioestimuladores e tecnologias para melhora da firmeza e da textura não substituem alimentação adequada e exercício físico, mas podem integrar o cuidado. A escolha depende da idade, da quantidade de peso perdida, do grau de flacidez e das características clínicas de cada paciente.
Emagrecer com acompanhamento protege a saúde
As canetas emagrecedoras não devem ser tratadas como vilãs nem como soluções milagrosas. Quando bem indicadas, podem oferecer benefícios importantes para pessoas com obesidade, diabetes e outras alterações metabólicas.
O acompanhamento não deve considerar apenas o número mostrado pela balança. Preservar a musculatura, garantir nutrientes ao organismo e observar as mudanças da pele também fazem parte de um processo de emagrecimento saudável.
O objetivo é perder peso com segurança, respeitando o organismo e preservando a saúde em todas as etapas.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica, nutricional ou dermatofuncional individualizada.
Referências científicas
- Wilding JPH et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. New England Journal of Medicine, 2021.
- Jastreboff AM et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. New England Journal of Medicine, 2022.
- Look M et al. Body Composition Changes During Weight Reduction With Tirzepatide in the SURMOUNT-1 Study. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2025.
- Rocha RI et al. Skin Changes Due to Massive Weight Loss. Aesthetic Surgery Journal, 2021.
- Barone M et al. Effects of GLP-1 Receptor Agonists on Skin Quality. Aesthetic Plastic Surgery, 2026.

Facebook
Twitter
Google+
YouTube