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Por que seu filho não consegue largar o celular? A ciência explica
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Por que seu filho não consegue largar o celular? A ciência explica

Por que seu filho não consegue largar o celular? A ciência explica

Médico da Unimed Araxá destaca sinais de alerta e orienta como equilibrar o uso das telas

O uso cada vez mais frequente de celulares, tablets e outros dispositivos digitais na infância tem chamado a atenção de especialistas para possíveis impactos no comportamento e no desenvolvimento das crianças. Segundo o médico de família Nathaniel Silva Ribeiro dos Santos, da Unimed Araxá, a queixa de pais preocupados com mudanças comportamentais nos filhos tem se tornado comum nos consultórios.

De acordo com o especialista, episódios de irritabilidade, baixa tolerância à frustração e explosões de raiva podem estar relacionados ao uso excessivo de telas no dia a dia. “A dificuldade da criança em desligar o tablet ou o celular não é apenas uma questão de desobediência. Existe um processo neurobiológico envolvido, que precisa ser compreendido para que os pais consigam lidar com a situação de forma mais estratégica e menos punitiva”, explica.

Foto criada com IA / Freepik

O que acontece no cérebro das crianças

O especialista destaca que o cérebro infantil é particularmente sensível aos estímulos digitais. Aplicativos e jogos são projetados para oferecer recompensas rápidas e constantes, o que estimula a liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer.

“Esses estímulos geram um ciclo de recompensa muito intenso. Quando a tela é retirada, ocorre uma queda brusca dessa estimulação, o que pode provocar um estado semelhante a uma abstinência temporária, deixando a criança mais irritada ou frustrada”, afirma Dr. Nathaniel.

Outro fator importante é que a região do cérebro responsável pelo controle de impulsos — o córtex pré-frontal — ainda está em desenvolvimento na infância. “Como essa área só amadurece plenamente na idade adulta, a criança ainda não tem todas as ferramentas biológicas para se autorregular diante de estímulos tão intensos”, observa.

Além disso, a exposição à luz azul emitida pelos dispositivos eletrônicos pode interferir na produção de melatonina, hormônio responsável pelo sono. “Quando o descanso é prejudicado, a criança tende a apresentar mais irritabilidade e menor capacidade de lidar com frustrações no dia seguinte”, acrescenta.

O médico também chama atenção para outro risco associado ao uso prolongado de dispositivos eletrônicos. “O uso recorrente de fones de ouvido em volumes elevados pode causar estresse auditivo e até perda auditiva induzida por ruído”, alerta.

Tempo de tela

Para evitar prejuízos ao desenvolvimento cognitivo e emocional, entidades médicas recomendam limites claros para o uso de telas na infância.

Segundo orientações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Organização Mundial da Saúde (OMS):

  • Menores de 2 anos: exposição zero a telas, inclusive de forma passiva;
  • De 2 a 5 anos: no máximo 1 hora por dia, sempre com supervisão;
  • De 6 a 10 anos: entre 1 e 2 horas diárias;
  • De 11 a 18 anos: até 3 horas por dia, evitando o uso durante a madrugada.

Sinais de alerta

Alguns comportamentos podem indicar que o uso de telas ultrapassou um limite saudável. Entre os principais sinais de atenção estão:

  • irritação ou agressividade quando o tempo de tela termina;
  • perda de interesse por brincadeiras, esportes ou interações presenciais;
  • dificuldade de concentração em atividades como leitura e estudo;
  • dores de cabeça, olhos secos, insônia ou alterações no apetite.

“Quando a criança passa a considerar todas as atividades fora do ambiente digital ‘chatas’, isso pode indicar uma dependência de estímulos rápidos, que acaba prejudicando outras formas de aprendizado e interação”, explica o médico.

Estratégias

Para lidar com o uso de telas de forma equilibrada, Dr. Nathaniel orienta que a transição entre o mundo digital e as atividades do dia a dia seja gradual. “A mudança não deve acontecer de forma abrupta. É importante criar previsibilidade para a criança, utilizando alarmes no celular ou combinando previamente quantos episódios ou partidas ela poderá assistir ou jogar”, orienta.

Outra estratégia é oferecer atividades de transição mais agradáveis. “Não é recomendável interromper a tela para algo que a criança perceba como negativo. Propor uma brincadeira física rápida ou convidá-la para ajudar em alguma atividade da casa pode facilitar esse processo”, afirma.

O comportamento dos adultos também influencia diretamente o hábito das crianças. “O cérebro infantil aprende muito por espelhamento. Se os pais utilizam o celular o tempo todo, inclusive durante refeições ou momentos de lazer, a criança tende a entender que esse é o padrão esperado”, ressalta.

O especialista também recomenda estabelecer ambientes livres de tecnologia dentro de casa. “Quartos e mesas de refeição devem ser zonas livres de telas. Além disso, o ideal é que todos os aparelhos sejam desligados pelo menos uma hora antes de dormir, para preservar a qualidade do sono”, explica.

Quando procurar ajuda médica

Embora o uso de telas faça parte da realidade atual, o acompanhamento profissional pode ser importante quando o comportamento da criança começa a afetar sua rotina ou as relações familiares. “Se a irritabilidade evolui para isolamento social, queda no rendimento escolar ou conflitos frequentes dentro de casa, é importante buscar orientação médica”, orienta o médico.

Segundo ele, muitas vezes a alteração de comportamento não é um problema isolado. “Em muitos casos, a reação da criança é apenas o sinal de um sistema nervoso sobrecarregado, que precisa de apoio para se reorganizar”, conclui.

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